Thursday, July 12, 2007

Drama e Arte, por David Mamet

“O teatro tem como tema a jornada do herói, sendo o herói e a heroína aquelas pessoas que não cedem à tentação. A história do herói é sobre uma pessoa que está passando por um teste que ela não escolheu.”

“Quando você entra no teatro, tem de estar disposto a dizer: ‘Estamos todos aqui para entrar em comunhão e descobrir que diabos anda acontecendo neste mundo.’ Se não estiver disposto a dizer isso, o que você recebe é entretenimento em vez de arte, e entretenimento pobre, ainda por cima.” 

“Aquilo que o herói requer é a peça. Numa peça perfeita não encontramos nada extemporâneo a esse desejo único. Todos os incidentes prejudicam ou ajudam o herói/heroína na busca da meta única.”

“Venho trabalhando com platéias em foros diferentes há trinta anos ou mais. E nunca encontrei uma platéia que não fosse, coletivamente, mais esperta do que eu, e não sacasse a piada final antes de mim. Por toda a minha vida essas pessoas pagaram o meu aluguel. Não me considero superior a elas e não tenho desejo algum de muda-las. Por que deveria, e como poderia? Não sou diferente delas. Não sei nada que elas não saibam. Uma platéia (uma população) pode ser coagida por uma mentira, uma propina (uma arma); e pode receber instrução/pregação. Por qualquer um que tenha um púlpito improvisado e falta de respeito. Mas em todas essas alternativas acima está-se abusando da platéia. Ela não está sendo “mudada”, está sendo forçada.”

“Os dramaturgos que tencionam mudar o mundo assumem uma superioridade moral para com a platéia e permitem que a platéia assuma uma superioridade moral para com as pessoas na peça que não aceitam os pontos de vista do herói. Não é função do dramaturgo provocar mudanças sociais. Há grandes homens e mulheres que causam mudanças sociais. Fazem isso por meio de custosas demonstrações de coragem pessoal (…) Mas a finalidade da arte não é mudar, e sim encantar. Não acho que sua finalidade seja nos esclarecer. Não acho que seja nos mudar. Não acho que seja nos ensinar. A finalidade da arte é nos encantar.”

“A compreensão de nossa vida, de nosso drama (e o drama no palco ou na tela não pode ser nada além da compreensão de nosso drama pessoal) – essa compreensão se resolve em três tempos: ‘era uma vez’ (a narração que nos habilita a entender a dificuldade/desejo/meta do herói); ‘anos se passaram’ (o período intermediário de lutas); ‘e aí um dia’ (a complicação inevitável, ainda que imprevista, engendrada, literalmente posta em existência, pela busca do herói no período intermediário – a precipitação da luta final – que pode ser vista como a outorga do desejo do herói, engendrada no período intermediário, por via de um combate às claras que resolveria de forma absoluta a causa em questão).”

“A maioria dos grandes dramas versa sobre algum tipo de traição. Alguém chegou para Arthur Miller após uma estréia e falou: ‘Foi uma boa peça, mas você não podia chama-la de A vida do caixeiro-viajante?’ Só que uma peça não trata de coisas boas que acontecem com pessoas boas. Uma peça trata de coisas bastante terríveis que acontecem com pessoas que são tão boas, ou não tão boas, quanto nós mesmos.”

“A heresia da era da informação não é nem que a razão vá triunfar, e sim que a razão já triunfou. Só que, como a constatamos em nossas vidas, para cada mil vezes em que é empregada como racionalização, a razão é utilizada apenas uma vez para aprofundar nossa compreensão. E a lição purificadora do drama é, em seu nível mais elevado, a falta de valor da razão.”

“É de nossa natureza elaborar a percepção em hipóteses, depois reduzir essas hipóteses a informações em cima das quais possamos agir. Esse é o nosso mecanismo de adaptação especial, equivalente ao vôo dos pássaros; é nosso instrumento de sobrevivência particular e único. E o drama, a música e a arte são uma celebração desse instrumento, exatamente como o maníaco vôo de acasalamento da galinhola ou o salto da baleia para fora d’água. O excesso de capacidade/energia/talento/força/amor é expresso por cada espécie de um modo específico. Nas cabras, pulando; nos seres humanos, criando arte.”

David MametDavid Mamet é um consagrado dramaturgo, roteirista e diretor de cinema norte-americano. Entre seus trabalhos de maior sucesso estão os roteiros de “Mera Coincidência” (Wag the Dog), de 1997, e “O Veredito” (The Verdict), de 1982, pelos quais foi indicado ao Oscar de Roteiro Original. É seu também o roteiro de “Os Intocáveis” (The Untouchable), dirigido por Clint Eastwood. Foi premiado em 1984 com o Pulitzer por sua peça teatral Glengarry Glen Ross. Ele continua escrevendo para teatro e cinema, bem como mantém sue trabalho como diretor de cinema.

Mamet mantém um interessante blog no qual publica textos e cartoons: The Huffington Post.

Obra da qual foram extraídos os textos acima:

MAMET, David. Três usos da faca. Cambridge, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

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Monday, June 25, 2007

A Função da Arte, por Leon Tolstói

Para se definir corretamente arte é, antes de mais, necessário deixar de a considerar como um meio para o prazer e considerá-la como uma das condições da vida humana. Vista deste modo, é impossível deixar de reparar que a arte é um dos meios de as pessoas se relacionarem.

Toda a arte faz com que aquele que a aprecia entre num certo tipo de relação, quer com aquele que a produziu ou está produzindo, quer com todos aqueles que simultânea, prévia ou posteriormente, recebem a mesma impressão artística.

Tal como as palavras, que ao transmitir pensamentos e experiências das pessoas, servem como um meio de união entre elas, também a arte actua de forma semelhante. A particularidade desta última forma de relacionamento, e que a distingue do tipo de relacionamento por meio de palavras, consiste nisto: enquanto por meio de palavras uma pessoa transmite a outra os seus pensamentos, pela arte transmite as suas emoções.

[...]

Os sentimentos com que o artista contagia os outros podem ser os mais variados — muito fortes ou muito fracos, muito importantes ou muito insignificantes, muito maus ou muito bons: sentimentos de amor pelo seu próprio país, de entrega e submissão ao destino ou a Deus expressos numa peça dramática, arrebatamentos de amantes descritos numa novela, sentimentos de volúpia expressos num quadro, coragem expressa numa marcha triunfal, felicidade evocada numa dança, humor evocado numa história divertida, o sentimento de serenidade transmitido por uma paisagem ou por uma canção de embalar, ou o sentimento de admiração evocado por um belo arabesco — tudo isso é arte.

Desde que os espectadores ou ouvintes sejam contagiados pelos mesmos sentimentos que o autor sentiu, há arte.

A arte é uma atividade humana que consiste nisto: em uma pessoa conscientemente, por intermédio de certos sinais externos, levar a outras pessoas sentimentos que experimentou e que estas sejam contagiadas por tais sentimentos e os experimentem também.

A arte não é, como os metafísicos dizem, a manifestação de alguma misteriosa idéia de belo ou de Deus; não é, como os psicólogos estéticos dizem, um jogo que serve para se descarregar o excesso de energia acumulada; não é a expressão das emoções de uma pessoa através de sinais externos; não é a produção de objetos que agradem; e, acima de tudo, não é prazer; mas é um meio de união entre pessoas, unindo-as nos mesmos sentimentos, e indispensável à vida e ao progresso em direção ao bem-estar dos indivíduos e da humanidade.

Leon Tolstoi, O Que é a Arte?(1896)

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Saturday, June 16, 2007

Advertência aos Jovens Dramaturgos, por Chico de Assis

Leia a seguir este artigo escrito pelo dramaturgo Chico de Assis para o jornal “O Sarrafo” na edição de Abril/2003 – nº2. Chico de Assis é mestre de dramaturgia e atualmente dá aulas no SEMDA (Seminário de Dramaturgia do Arena), entre muitas outras peças é autor de Missa Leiga e O testamento do Cangaceiro.

SOBRE O APRENDIZADO DA TÉCNICA

 A técnica para a dramaturgia é como todas as outras técnicas da cultura humana. Resulta das tentativas e erros de todos os dramaturgos desde o inicio do teatro até agora. Portanto, convém aplicar seu estudo nas técnicas. Isso não quer dizer que você não possa mudá-las. Mas antes de inventar, saiba de tudo o que foi feito antes para não incorrer no perigo de inventar a roda. Ou seja, pensar que achou algo de novo que pode já estar em uso há mais de mil anos.

LENDO A DRAMATURGIA DOS TEMPOS

Convém conhecer os grandes mestres da dramaturgia de todos os tempos. Desde os gregos até os recentes americanos, europeus e brasileiros. Quanto mais peças você ler, mais poderá ampliar suas perspectivas.

 

SOBRE O QUE ESCREVER

Este caminho é muito pessoal se você for muito pessoal. Mas se você for daqueles tipos mais coletivos que andam em turma e tem idéias sobre como o mundo muda. A coisa então fica menos pessoal e mais orgânica no processo. Parece que o teatro serve mesmo é para divertir. Mas como dizia Bertolt Brecht, que divertimento pode ser maior do que o conhecimento do mundo onde vivemos e de como podemos sacar caminhos éticos diante de encruzilhadas difíceis que a época e o sistema nos apresentam. No fundo os dramaturgos são intermediários entre o povo e o povo mesmo, entre a pessoa e a pessoa mesma. Como uma lâmina inserida entre o povo e o próprio povo o dramaturgo faz estranhar o que já está costumeiro e faz acostumar ao novo imediato. Portanto para não errar tente entender os problemas de sua gente, pode ser que você encontre uma boa idéia para uma peça.

CUIDADO COM A MORAL VIGENTE

A moral vigente reduz tudo ao bem e mal. Ouça o que disse o velho Aristóteles sobre tragédia, moral e dramaturgia. “Se você estiver cheio de moral, não vai conseguir escrever tragédias”. Prefira, portanto, tomar uma atitude ética. A ética tem a vantagem de ser aplicada só depois que o fato acontece. A moral está pronta esperando que os fatos venham de onde vierem.

SOBRE AS CRÍTICAS

O papel da crítica é criticar, o papel do dramaturgo é criar peças de teatro. Tente entender as posições dos críticos, mas não deixe de ouvir seus pares, porque eles serão sempre seus melhores críticos. O ódio à crítica faz com que você escreva pensando nisso e não é bom. Aceite tudo com a fleuma de quem não está sozinho e tem seus pares para conversar sobre a verdade.

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O teatro teatral segundo Renata Pallottini

Renata Pallotini Nenhum autor teatral é bom se não tiver alguma coisa relevante para dizer. Ninguém se torna bom dramaturgo por seguir regras de um manual. As grandes obras são justamente aquelas criadas com liberdade. Ao negar fórmulas, acabam por propor novos caminhos para outros autores. Porém, mesmo os textos inovadores jamais transformam ‘totalmente’ as bases de apoio. Por isso, para mantê-los ou negá-los, não se pode ignorar certos princípios ou ‘leis’ que regem a construção da boa dramaturgia. Conhecê-los não transforma ninguém em bom autor teatral - mas pode auxiliar na compreensão dessa arte e sua evolução através dos tempos.

O parágrafo acima sintetiza as idéias do ensaísta Fernando Peixoto no prefácio do livro “O Que É Dramaturgia”, da dramaturga Renata Pallottini, editado pela Brasiliense, e já disponível nas livrarias. Como ela adverte no texto de apresentação, o livro nasceu de uma tese de doutoramento, defendida em 1982 e publicada - com algumas modificações - com o título “Introdução à Dramaturgia” , pela mesma editora. A boa aceitação acabou levando à essa reedição, revista, sob novo título.

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