As áreas de atuação no palco

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APRON - Proscênio

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APRON - Proscênio
Partindo de um panorama do mercado cultural atual, a profa. Dedé Ribeiro aborda as principais técnicas de gestão de espaços e projetos culturais. De forma prática e técnica, o curso ensina como produzir eventos culturais, desde a concepção estratégica até a finalização, passando por formatação de projetos, leis de incentivo à cultura, orçamentos, mídia e divulgação.
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Docente: Dedé Ribeiro
Data(s) e Horário(s): De 15 de abril a 3 de junho, terças-feiras, das 9h às 12h
Vagas: 27
Duração: 24h/a
Valor(es):
Público em geral
3 vezes de R$ 171,00 no cartão de crédito
4 vezes de R$ 135,00 no cheque
Professores e estudantes
3 vezes de R$ 154,00 no cartão de crédito
5 vezes de R$ 122,00 no cheque
Valor Total
RS 540,00 (público em geral)
R$ 486,00 (estudantes e associados do SATED)
Pagamento à vista tem 5% de desconto.
Local: STUDIO CLIO
Rua José do Patrocínio - 698
Cidade Baixa
Porto Alegre / RS
Brasil
Cep: 90050-002
Telefone: (51) 3254.7200
Fax: (51) 3254.7215
Uma das fundadoras do Playwright’s Theatre, também conhecido como Provincetown Players, Susan Glaspell (1876-1948) representou uma revolução no teatro estadunidense. Entre os anos de e 1922, os Provincetown Players produziram e encenaram novos textos de dramaturgos como Eugene O’Neil e da própria Glaspell, cujos textos, até hoje encenados com interesse nos Estados Unidos da América, ganharam à época repercussão maior que as peças teatrais do próprio O’Neil, hoje tido como um dos maiores dramaturgos estadunidenses. Em seu país, onde existe uma Susan Gaspell Society, dedicada ao estudo e divulgação da obra de Glaspell, a autora é conhecida não só por sua produção para o teatro, mas também por seus contos e romances. Mas foi com um texto teatral que ela foi condecorada com um prêmio Pulitzer em 1931 - Alison’s house.
Os temas das peças teatrais de Susan Glaspell giram em torno de questões regionais, sobretudo de sua Iowa natal, e também das tensões e conflitos entre homens e mulheres. Não raro, suas personagens são pessoas em busca de um sentido para suas vidas, algo que se repete em sua obra em prosa. Não raro, Susan Glaspell usava como inspiração para seus trabalhos as histórias que conhecera e investigara durante os anos em que fora jornalista do Daily News.
Bagatelas (Trifles - 1916) é, talvez, sua peça teatral mais divulgada, não só por conta de sua temática feminista, mas sobretudo pela maestria de composição da trama e pela profundidade a que a dramaturga chega na discussão da condição feminina em um texto relativamente curto, que encenado não deve ultrapassar meia hora de espetáculo. O sucesso do texto foi tamanho - e o resultado tão satisfatória pra Glaspell - que a autora transformou a história em um conto intitulado a jury of her peers, publicado no ano seguinte e que se tornaria um de seus textos mais conhecidos em prosa. A situação inicial de Bagatelas, livremente inspirada pelo assassinato de um certo John Hossack cuja história Glaspell cobrira como jornalista, é relativamente simples: três homens - um promotor, um delegado e um fazendeiro - chegam a uma fazenda onde, no dia anterior, ocorrera um assassinato. Duas mulheres acompanham-nos: a Sra. Peters, esposa do delegado, e a Sra. Hale, esposa do fazendeiro que foi o primeiro a tomar conhecimento do caso e está lá na condição de testemunha. Susan Glaspell usa o ambiente da peça - a cozinha desordenada da fazenda - para estabelecer as diferenças de percepção entre os sexos e, sobretudo, para expor a condição feminina e os subterfúgios usados pelas mulheres para sobreviver em um mundo de opressão: enquanto os três homens vasculham a casa em busca de provas que incriminem a esposa do fazendeiro assassinado - morto na própria cama, enforcado enquanto dormia -, as mulheres vão aos poucos revelando a si mesmas - e ao público - as razões pelas quais a Sra. Wright teria matado seu esposo.
A genialidade de Glaspell está em trazer esses temas todos por meio das ações das personagens e não de um discurso panfletário colocado em suas falas. As mulheres descobrem que a Sra. Wright tinha uma vida de opressão e violência através dos pequenos detalhes que vão coletando naquela cozinha desarrumada, aparentemente fruto do desleixo de uma dona de casa pouco cuidadosa. A Sra. Hale conhece a esposa do homem assassinado, uma mulher que um dia fora a jovem feliz que cantava no coro da igreja, e que depois do casamento vivia enclausurada em sua fazenda, isolada do mundo, alheia mesmo às tarefas comunitárias nas quais as mulheres uniam forças e eram a única forma possível de compartilhar suas experiências e sofrimento em um mundo dominado pelos homens. São os detalhes pequenos, as “bagatelas que as mulheres adoram discutir” - na fala do Sr. Hale ao desqualificar as opiniões da esposa - que darão a elas as certezas sobre a culpa da Sra. Wrigth e seus motivos. São as coisas pequenas e tão femininas - o “quilt” inacabado, a gaiola rompida e o pássaro morto, o vidro de compota e o pão por fazer - e não a lógica masculina e policialesca - com sua busca por pistas grandiosas da autoria do crime - que revelam o assassinato para o público. Mas não se trata, aqui, apenas de mostrar como as mulheres são mais detalhistas e cuidadosas que os homens. Glaspell evidencia a pouca importância que os homens davam ao universo feminino e que os tornava incapazes de perceber a verdade além das aparências. Um desprezo pelos sentimentos das mulheres que levou o Sr. Wright a sufocar a esposa - que o mataria, literalmente, dessa mesma forma - e segue impedindo muitos homens de perceber o quanto se pode crescer e aprender na convivência igualitária com as mulheres.
Esta é a ficha técnica e o programa do espetáculo:
Elenco:
Iluminação:
PROGRAMA DO ESPETÁCULO
1. Parabéns a você2. Velhos e a TV
Texto de Monique Revillion
Elenco: Carolina Wist (Gládis) e Robertson Frizero Barros (Heitor)
3. Mãe
Texto de Marcelo Almeida
Elenco: Carolina Wist (mãe), Giselle Cecchini (babá)
4. Estela
Texto de Monique Revillion
Elenco: Carolina Wist (prostituta), Robertson Barros (velho)
5. Sopa de ervilhas
Texto de Dedé Ribeiro
Elenco: Carolina Wist (Vera), Johnny Thompsen (Antero)
6. Taça de vinho
Texto de Stella Bento
Elenco: Giselle Cecchini (Laura), Johnny Thompsen (Jaime)
7. Tarô
Texto de Stella Bento
Elenco: Dedé Ribeiro (cartomante), Giselle Cecchini (consulente)
8. Fotografias
Texto de Monique Revillion
Elenco: Giselle Cecchini (Marina), Marcelo Almeida (Otávio)
9. Dóris
Texto de Dedé Ribeiro
Elenco: Carolina Wist (Dóris), Giselle Cecchini (Morgana), Johnny Thompsen (Hans), Marcelo Almeida (Tadeu)
10. Os melhores trajes para os melhores homens
Texto de Robertson Frizero
Elenco: Giselle Cecchini (Bernadete), Johnny Thompsen (Vendedor), Marcelo Almeida (Gerente)
11. Mistral
Texto de Renato Mendonça
Elenco: Carolina Wist (Mistral), Dedé Ribeiro (Maristela), Giselle Cecchini (Morgana)
12. Ação de Graças
Texto de Robertson Frizero
Elenco: Carolina Wist (Maria da Graça), Giselle Cechinni (Iracema), Johnny Thompsen (David), Marcelo Almeida (Grace)

Finalizada exatos trinta dias antes de morrer assassinado, em 19 de agosto de 1936, por forças do governo durante a Guerra Civil Espanhola, La Casa de Bernarda Alba, última peça teatral escrita pelo poeta espanhol Federico García Lorca, teve sua montagem de estréia apenas em 1945, em Buenos Aires, cidade na qual Lorca passara cinco meses em 1933, e só viria a ser encenada na Espanha no ano de 1964.
A construção central do drama de Lorca – a casa na qual uma família de mulheres solitárias é controlada por uma mãe centralizadora e tirânica – teria sido inspirada por uma família da pequena cidade granadina de Valderrubio, onde os pais do poeta tinham uma propriedade rural e conheceram uma certa Frasquita Alba, mãe de quatro filhas às quais comandava com mão de ferro e um homem de nome Pepe de la Romilla, que teria se casado com a filha mais velha de Frasquita por seu dote e, posteriormente, se envolvido com a mais jovem das irmãs. Dessa história real, Lorca apropriou-se da idéia de uma casa sem homens para compor o tema central de La Casa de Bernarda Alba: o lugar da mulher na sociedade espanhola.
O drama divide-se em três atos, todos situados no interior da casa de Bernarda Alba, mãe de cinco filhas – Angustias, Madalena, Amélia, Martírio e Adela – que vive com elas e sua mãe senil em um pequeno povoado do interior da Espanha. O primeiro ato inicia-se com um diálogo entre La Poncia, serva mais antiga da casa, e outra mulher que Lorca denomina apenas por Criada. Elas conversam enquanto arrumam a sala de visitas para a chegada dos que acompanharam o cortejo fúnebre do segundo marido de Bernarda Alba, e por intermédio das falas dessas duas personagens é que são apresentadas a personagem-título do drama, descrita como tirana de todos los que la rodean e mãe controladora das cinco hijas feas que lhe restaram com a morte do esposo. Sabe-se também que Angustias, a filha mais velha, é fruto do primeiro casamento de Bernarda Alba e a única detentora de um dote deixado pelo pai, ao contrário das irmãs, que nada herdam do pai recém-falecido. Entram em cena as mulheres vindas do enterro de Antonio Maria Benavides, e Bernarda dá ordens às criadas para que sirvam os homens, que ficaram a conversar do lado de fora da casa. É ela também quem conduz as orações pelo morto e, depois da saída das convidadas, maldiz o falatório que, acredita, será iniciado pelas pessoas daquele povoado assim que passarem pelos umbrais de sua porta. Bernarda anuncia que as mulheres da casa manterão um luto de oito anos, nos quais permanecerão trancadas naquela casa, sem contato com o mundo exterior. Ouvem-se gritos e a Criada surge a contar para Bernarda Alba dos desvarios de Maria Josefa, avó das moças; ela ordena à serviçal que leve sua mãe para o pátio, para que os vizinhos não a ouçam, mas orienta em que lugar específico deve ser mantida a velha senil para que os vizinhos não a vejam. Dando por falta de sua filha Angustias, Bernarda descobre que a moça estava a conversar com um homem no portão de casa e espanca-a; ela opõe-se à idéia de que suas filhas mantenham qualquer relacionamento com os homens. Amélia e Martírio, espelhando as palavras de Bernarda, comentam sobre a história do pai de Adelaida, uma moça do povoado, cujas desilusões que causou às mulheres são aludidas como sinal do terror que é a convivência com os homens. Magdalena, por sua vez, entra em cena para contar às irmãs que Angustias, a mais velha, será pedida em casamento por Pepe el Romano – o que ela atribui apenas ao interesse do jovem rapaz pelo dote da irmã. Adela, a mais nova, apaixonada em segredo pelo pretendente da irmã, lamenta sua sorte. O primeiro ato encerra-se com a aparição de Maria Josefa, a mãe de Bernarda Alba, que expressa em sua loucura a vontade das netas: ¡Quiero irme de aqui, Bernarda! ¡Bernarda, yo quiero um varón para casarme y para tener alegria!
No segundo ato, as irmãs encontram-se em uma peça interior da casa, tecendo e bordando o enxoval de Angustias. Conversam sobre a corte de Pepe el Romano à irmã mais velha, e La Poncia faz um contraponto aos comentários de Angustias ao contar sua própria história de como conheceu e casou-se com um marido que pouca alegria lhe trouxera. Adela não está presente e as irmãs preocupam-se com ela; procurada pelas irmãs, Adela surge em cena algo transtornada, e La Poncia diz-lhe em particular que seu mal é cobiçar o noivo de sua irmã. A serva tenta convencer a filha mais nova de Bernarda Alba que seu destino é aguardar que sua irmã venha a falecer para assumir o posto de segunda esposa de Pepe el Romano, e diz que assim o faz para defender a honra da casa em que trabalha há tantos anos. Adela revolta-se com La Poncia e afirma que lutará por seu direito de amar o homem que deseja. As demais irmãs, por sua vez, lamentam seus destinos de mulheres solitárias, quando La Poncia conta-lhes sobre os novos homens que chegaram ao povoado, trabalhadores para a colheita próxima, do qual se ouve o canto distante. Quando saem as irmãs para espiar pelas frestas das janelas os homens que passam na rua, Angustias surge em cena reclamando o desaparecimento de uma fotografia de Pepe el Romano, que estava em seu quarto, presente de seu noivo. Bernarda ordena que La Poncia procure o retrato desaparecido; as suspeitas recaem sobre a mais jovem, Adela, mas a serva encontra-o entre as roupas de dormir de Martírio. Bernarda ameaça espancar a filha, que diz ter sido o ato apenas uma brincadeira inocente que fizera com a irmã, Angustias, mas Adela acusa Martírio de nutrir uma paixão secreta por Pepe el Romano.
As paixões ocultas, a inveja e a hipocrisia começam, então, a serem desmascaradas: Martírio e Adela dizem a Angustias que Pepe el Romano casa-se apenas por interesse em seu dote, e Bernarda ordena, rispidamente, que as filhas se calem. La Poncia, em conversa reservada com a matriarca, diz suspeitar que Martírio escondera o retrato por conta do amor de Enrique Humanes, um rapaz que a cortejou mas que fora rechaçado pela mãe por ser de uma classe social inferior. Bernarda, desgostosa com os comentários da serva, relembra-a que ela está naquela casa por piedade da matriarca, que a acolhera ainda jovem, mesmo sendo La Poncia filha de uma meretriz.
Sem perceber o perigo do comentário, La Poncia conta que Pepe el Romano esteve até às quatro e meia da madrugada a conversar a noiva, mas diante da negativa de Angustias percebe-se que ele esteve em companhia de outra pessoa da casa. Martírio e Adela conversam em particular e a mais jovem revela que Pepe el Romano está a cortejá-la em segredo. La Poncia traz a notícia de uma jovem da aldeia que engravidara sendo solteira, dera à luz um menino em segredo e que o matara, sendo o crime revelado por acaso do destino; ouve-se o povo nas ruas que clama pelo linchamento da moça; Bernarda e Martírio saem em apoio à morte da pecadora, enquanto Adela desespera-se e clama pela libertação da moça, recordando que ela também corria perigo por seu amor secreto por Pepe.
O terceiro ato passa-se no pátio interno da casa de Bernarda Alba, onde a matriarca recebe a visita de Prudência e com ela compartilha de uma ceia modesta. A visitante conta a Bernarda Alba de seus desgostos por conta de sua filha, expulsa de casa pelo pai. Angustias e Martírio estão brigadas, e Bernarda insiste que elas façam as pazes ao menos para manter as aparências de um lar em harmonia. A filha mais velha diz desconfiar de Pepe, que lhe avisara que aquela noite não iria à casa por conta de outros compromissos com os pais em outro povoado, e todas retiram-se para dormir. Bernarda e La Poncia conversam sobre as suspeitas da empregada de que uma cosa tan grande estaria a passar na casa; a matriarca rechaça essa idéia, e diz confiar que em suas mãos está o controle total do que se passa ali. La Poncia parece antever a desgraça que se aproxima e comenta com a Criada sobre o envolvimento de Adela e Pepe; a moça aparece no pátio e some logo em seguida, entrando no curral. Maria Josefa, a mãe de Bernarda, surge em cena carregando uma ovelha nos braços e, em sua loucura, fala do poder de Pepe el Romano sobre todas as netas, às quais agoura um destino cruel de solidão. Martírio vai até o curral e chama Adela, que aparece algum tempo depois, recompondo-se; elas brigam por conta do que Adela estaria a fazer com a irmã mais velha, Angustias, ao roubar-lhe o futuro esposo, mas Adela acusa Martírio de também estar apaixonada pelo rapaz, e esta acaba por confessar que o ama. Seguem as duas brigando, pois Martírio diz que irá denunciá-la, e Adela fala de sua intenção de fugir e tornar-se amante de Pepe el Romano. Bernarda aparece no pátio e ameaça surrar Adela; esta toma-lhe o bastão das mãos e quebra-o em duas partes. Com o alvoroço de vozes, as demais mulheres surgem em cena. Adela diz, então, a Angustias que ela, a mais jovem, é a verdadeira mulher de Pepe; Bernarda sai de cena e busca uma escopeta com a qual entra no curral e atira. Martírio mente, dando a entender que a mãe matara Pepe el Romano, que na verdade apenas correra com o disparo. Adela corre para o curral e lá se tranca; Bernarda ordena que Adela abra a porta, mas é La Poncia quem abre o curral e descobre a tragédia: Adela está morta, enforcada. Bernarda, diante da comoção de todas e da notícia trazida pela criada de que os vizinhos já se levantavam para ver o que acontecia naquela casa, ordena que a filha morta seja vestida como si fuera doncela e que as demais filhas mantenham silêncio sobre o que ali se passara.
No decorrer de todo o drama, o espaço assume um papel de relevância na construção da trama, o qual pode ser mensurado pelo detalhamento da descrição de cada ambiente feita pelo autor ao início de cada ato. O primeiro ato acontece na sala de visitas da casa de Bernarda Alba, único ambiente no qual as mulheres de fora da família são recebidas durante as exéquias do esposo da personagem-título. O cômodo é descrito por Lorca como sendo uma habitación blanquísima, de paredes grossas e cortinas claras, denotando extrema limpeza e, ao mesmo tempo, um estado de monotonia e opressão que é quebrado apenas por quadros com paisajes inverosímiles de ninfas o reyes de leyenda. Pode-se associar o ambiente ao arcabouço psicológico das personagens: Bernarda Alba, a matriarca, luta pela manutenção das aparências acima de tudo, criando um ambiente de tirania do qual a única fuga possível parece ser a fantasia, o sonho, representados pelas “paisagens inverossímeis” dos quadros descritos pelo autor. As paredes grossas – e o próprio isolamento das janelas que Bernarda Alba tenciona colocar durante os anos todos de luto – são uma proteção contra o mundo exterior, marcado pelo masculino. No decorrer de todo o drama, aliás, o espaço público – o campo, as ruas, as estradas – são associados ao mundo dos homens, cujas únicas mulheres que lhe acessam são as malas mujeres, as que fizeram de sua intimidade, algo público. A casa, opostamente às ruas e à natureza, é o espaço limitador das mulheres, a barreira concreta para que sejam mantidas as convenções sociais e os costumes. Não por acaso, no decorrer dos dois primeiros atos, a comunicação com o meio exterior, o acesso daquelas mulheres ao mundo dos homens, dá-se pelas frestas das janelas, pelas quais elas podem espiar o universo masculino sem dele fazer parte.
A partir deste primeiro espaço, a sala de visitas, o cômodo mais próximo da rua, a peça interioriza-se a cada ato. O segundo ato é localizado em um cômodo interno e comum, no qual as filhas bordam o enxoval que não usarão; à direita, estão as portas dos quartos de dormir, únicos aposentos nos quais as filhas tem sua privacidade e que representam, assim, os sentimentos e a individualidade de cada uma daquelas mulheres. É também um espaço de memórias, no qual afloram as revelações do passado que permeiam esse segundo ato. O terceiro ato é ainda mais distante das aparências da sala de visitas: trata-se do pátio interno, lugar de acesso restrito às mulheres da casa e às visitas mais íntimas; o pátio, espaço aberto, ao ar livre, onde tudo se mostra às claras, é a parte de trás da casa, que dá entrada para o curral – lugar onde os instintos e as emoções são liberadas e fora de controle. É o local onde as mulheres apresentam-se em sua maior intimidade, vestindo suas roupas de dormir e conversando abertamente sobre seus sentimentos; onde a loucura de Maria Josefa apresenta-se mais explicitada, assim como por suas palavras, os sentimentos das demais mulheres; onde o cerne dos desentendimentos e desencontros entre as irmãs mostra-se por inteiro.
O espaço fornece ainda elementos para outros grandes antagonismos mostrados no drama de Lorca: o público (representado pela via pública) e o privado (o interior da casa), a norma (o silêncio da casa) e o desejo (a transgressão dos sons dos homens que passam, as batidas fortes do cavalo reprodutor que está no curral no terceiro ato), a realidade (as paredes sólidas e concretas, construídas, segundo Bernarda, para que ni las hierbas se enteren de [su] desolación) e a fantasia (os quadros oníricos da sala de visitas), o campo das emoções humanas (o pátio) e dos instintos primitivos (o curral onde Adela e Pepe encontram-se, o galinheiro onde Adela vai expor seu vestido novo às aves, no primeiro ato).
O espaço externo, além de representar o mundo masculino, é sempre a fonte dos conflitos no decorrer da trama: na via pública, ocorrem os cantos dos trabalhadores e os gritos de linchamento da jovem que matara o próprio filho recém-nascido; no campo, residem os sonhos de liberdade que fazem com que as mulheres invejem aquelas mujeres malas que os camponeses contratavam para animar-lhes na época da colheita; da via pública, à janela, Pepe el Romano corteja Angustias e seduz Adela; ao ar livre, no pátio aberto – ainda que interior à estrutura da casa –, dão-se as revelações e a liberação dos instintos.
Ainda que os ambientes exteriores à casa, e que jamais aparecem em cena, sejam a representação do mundo dos homens, o elemento masculino mais forte em cena parece ser, sem dúvida, a própria Bernarda Alba. Ela é quem conduz a família e contém os excessos que, a seu ver, podem depor contra as tradições e as convenções sociais, voltando a curiosidade dos vizinhos e seu falatório contra ela mesma e suas filhas. Bernarda representa a convenção que oprime aquelas mulheres e delimita seu espaço no mundo.
(Robertson Frizero Barros)
A partir de outubro, o SESI-SP e o British Council iniciam as atividades de um Núcleo de Dramaturgia voltado para a descoberta e o desenvolvimento de novos dramaturgos, com mais de 16 anos de idade. A proposta inclui a participação de centros de dramaturgia britânicos voltados para novos autores que estabelecerão um intercâmbio de suas experiências e metodologias com o projeto brasileiro. Entre os parceiros britânicos estão Playwrights Studio (Edimburgo, Escócia), West Yorkshire Playhouse (Leeds, Inglaterra), Royal Court Theatre (Londres, Inglaterra), Birmingham Repertory Theatre (Birmingham, Inglaterra) e Paines Plough Theatre Company (Londres, Inglaterra).
O projeto tem duas etapas simultâneas: avaliação de textos e atividades práticas. A avaliação dos textos encaminhados ao Núcleo irá funcionar com base em uma proposta de “portas abertas”, de receber durante todo o ano dramaturgias inéditas de novos autores, para avaliação da coordenação literária do Núcleo, a cargo da professora Munira Mutran, livre docente da área de literatura da Universidade de São Paulo. Ao mesmo tempo, haverá um fluxo de atividades com foco no desenvolvimento das habilidades da escrita dramatúrgica. Nessa fase, uma série de workshops, leituras dramáticas, seminários e encontros com dramaturgos, entre outras atividades, serão oferecidas aos novos autores identificados pela coordenação literária como talentos com potencial a ser desenvolvido.
Além dos programas direcionados para o aprimoramento das técnicas de escrita e das estruturas dramatúrgicas de cada novo talento durante um período médio de um ano, o projeto prevê, a partir de 2009, a produção e a temporada dos melhores textos pelo Núcleo Experimental do Teatro Popular do SESI.
Com o objetivo de incentivar a participação de novos escritores e de divulgar este projeto, o Núcleo inicia no segundo semestre de 2007 suas atividades com uma série de seminários, workshops e encontros mensais abertos aos interessados. As atividades promovidas pelo Núcleo serão realizadas nas dependências do novo Centro Cultural SESI da Vila Leopoldina.
Além de oficinas e encontros, a partir de novembro começa a funcionar o Clube de Dramaturgia que promoverá encontros mensais de aspirantes a novos autores teatrais com dramaturgos e diretores consagrados, além de críticos e estudiosos de dramaturgia.
As primeiras atividades do Núcleo de Dramaturgia
As atividades do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council começam em outubro com uma palestra e dois workshops ministrados pelo dramaturgo inglês Noel Greig, que trabalha com teatro desde 1967 e já escreveu mais de 60 peças, produzidas por companhias britânicas e de outros países. Em função de sua larga experiência como coordenador de projetos voltados a novos dramaturgos, Greig tem sido orientador de novos talentos no Royal Court Theatre, de Londres, e no Birmingham Repertory Theatre. Seu mais recente trabalho, o musical “Heelz on Wheels”, foi apresentado no Festival de Edimburgo, o mais importante evento de artes cênicas no mundo, que aconteceu entre agosto e setembro de 2007 na capital escocesa.
No que diz respeito aos workshops direcionados a “novos autores”, isto é, pessoas que nunca tiveram um texto seu publicado ou produzido profissionalmente, Greig enfatizará os exercícios da escrita teatral, em tópicos como: a criação de personagens, o desenvolvimento das situações dramáticas e estruturação do texto, entre outros. Já no workshop para dramaturgos “emergentes”, pessoas que já tiveram pelo menos um texto publicado ou montado, a parte prática será enfatizada, com foco em técnicas como a do uso das regras clássicas da narrativa dramática – quando devem ser utilizadas e quando devem ser quebradas.
Os workshops serão realizados de 16 a 18 de outubro, sendo que para dramaturgos “emergentes” acontecerão no período da tarde (14h às 17h) e para os “novos autores” no período noturno (18h30 às 21h30). As inscrições devem ser feitas por meio de preenchimento de ficha de inscrição, disponível no site do SESI-SP. Os workshops são gratuitos e as vagas limitadas a 12 participantes para cada modalidade de workshop. A seleção será feita a partir da análise das informações da ficha de inscrição. Os workshops contarão com tradução consecutiva.
Envio de textos para o Núcleo de Dramaturgia
O recebimento dos textos para avaliação começará em 2 de janeiro de 2008. Os interessados deverão encaminhar uma sinopse da peça que criaram, além de um extrato do texto, que poderá ser um ato da peça com no mínimo 15 e no máximo 20 laudas (21 mil a 28 mil caracteres). Os interessados deverão encaminhar também a ficha de inscrição, que estará disponível nos sites do SESI-SP e do British Council a partir de 1 de dezembro de 2007. Todo esse material deverá ser encaminhado exclusivamente pelo correio para:
Serviço Social da Indústria Diretoria de Desenvolvimento Sociocultural Av. Paulista, 1313 – Andar Intermediário 01311-923 – São Paulo – SP
Escrever na frente do envelope: “Núcleo de Dramaturgia”
O Núcleo de Dramaturgia receberá os textos a partir de 2 de janeiro de 2008 e todos serão avaliados. Cada autor receberá uma resposta do Núcleo no prazo máximo de 90 dias a partir do recebimento.
Os autores que forem identificados com potencial a ser desenvolvido serão escolhidos para formar a primeira turma, que iniciará suas atividades de aprimoramento das técnicas de dramaturgia, leituras dramáticas e intercâmbio, no decorrer de 2008.
Outras informações sobre o Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council poderão ser obtidas pelo telefone (11) 3146-7407 / 3146-7409 ou ccultura@sesisp.org.br.
Inscrições:Endereço para informações e contatos:
Concurso Nacional de Dramaturgia
Prêmio Carlos Carvalho
Coordenação de Artes Cênicas
Av. Érico Verissimo, 307
CEP 90160-181 - Porto Alegre - RS
Tel.: (51) 32216622 ramais 234 e 233
E-mail: dramatur@smc.prefpoa.com.br
Site: http://www.portoalegre.rs.gov.br/dramaturgia
Exilar-se pode ser uma fuga, mas também um encontro consigo mesmo. Estar distante de sua pátria já foi punição severa aplicada pelo Estado, em tempos distantes, como foi também o caminho encontrado por muitos, em época mais recente, para sobreviver à opressão imposta pelos que acreditavam ser o Estado, mesmo não tendo alcançado o poder pelas mãos de uma escolha livre de seus iguais. O exílio – seja ele forçado ou escolhido, motivado por um instinto de sobrevivência ou pela vontade do não-viver – traz, em si, sempre a sensação do vazio, da saudade, do não-pertencer, do ser estrangeiro ainda que em sua pátria, ou do querer ser de uma nova pátria a qual não se pertence. E o que é uma pátria? Vale mais um sonho de país que um ideal de mundo? A que nação pertencer quando nenhuma terra parece nos querer do jeito como somos?
Canção do Exílio, peça teatral escrita por P. R. Berton, suscita estas questões através do olhar de dez jovens reunidos em um apartamento no qual compartilham seus dramas tão individuais em meio ao furor dos últimos anos da Guerra Fria, suas histórias particulares de amor e desamor em meio ao sentimento de estarem participando da História a se escrever com a queda do muro de Berlim.
Há algo de cada um de nós espalhado pelos sentimentos de cada um daqueles dez brasileiros – de nascimento ou de coração – à deriva em meio ao mar dos grandes acontecimentos sociais em ebulição. Pois não há grande ideologia ou momento de ebulição social que não nos afete, ainda que das mais insuspeitadas formas. Que dizer, então, de vidas que se constroem em torno de um ideal que parece desmoronar sob o peso da História?
Canção do Exílio é um espetáculo que ganha importância ainda maior em tempos nos quais os ideais e os sonhos parecem enfraquecidos diante da exacerbação de um individualismo que despreza os valores mais basilares da vida humana. Um texto repleto de sutilezas que a nenhum expectador – não importa de que ideais ele se tenha exilado ao longo da vida – deixará indiferente.
Robertson Frizero Barros
De 04 de agosto a 09 de setembro de 2007, “Canção do Exílio” - espetáculo escrito e dirigido por P.R. Berton - estará em cartaz no Teatro de Arena de Porto Alegre, sempre de sexta a domingo, às 20h.